Passar horas dentro da escola deveria significar aprender, desenvolver o pensamento crítico e adquirir conhecimentos para o futuro. Mas, para estudantes da rede estadual de São Paulo, a experiência nem sempre corresponde a essa expectativa. Relatos de alunos apontam insatisfação com a quantidade de atividades digitais, a redução do espaço de disciplinas tradicionais e a sensação de que o tempo passado na escola não se traduz em aprendizado suficiente.

A questão vai além de uma reclamação individual. Ela envolve o modelo de educação adotado pelo governo estadual, a organização do currículo e o papel que as plataformas digitais passaram a ocupar no cotidiano de professores e estudantes.

Sete horas na escola: mas quanto desse tempo se transforma em aprendizado?

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Na rede estadual paulista, a organização curricular prevê sete aulas diárias em determinadas modalidades de ensino médio de tempo parcial. No Programa Ensino Integral (PEI), há jornadas de sete ou nove horas, conforme a modalidade. 

Para os estudantes que passam grande parte do dia na escola, a expectativa é que esse período seja dedicado à aprendizagem, à discussão de ideias, à realização de experimentos e à construção de conhecimentos que serão importantes tanto para o Enem quanto para a vida profissional.

Entretanto, estudantes relatam uma realidade diferente: atividades repetitivas em plataformas digitais, tarefas que precisam ser concluídas dentro de prazos e uma rotina que, na percepção de parte dos alunos, nem sempre garante a compreensão dos conteúdos.

A crítica central é simples: estar presente na escola durante muitas horas não significa, necessariamente, aprender mais.

A qualidade do ensino não pode ser medida apenas pelo tempo de permanência dos estudantes no ambiente escolar ou pela quantidade de atividades concluídas em sistemas digitais. É necessário avaliar se os alunos estão compreendendo os conteúdos, desenvolvendo autonomia intelectual e recebendo a formação necessária para prosseguir nos estudos.

Química e Biologia perderam espaço no currículo?

Uma das principais preocupações relatadas por estudantes é a redução do espaço destinado a disciplinas tradicionais, como Química e Biologia, além de outras áreas fundamentais para a formação científica.

É importante esclarecer que essas disciplinas não foram simplesmente excluídas de todo o currículo estadual. A organização do ensino médio paulista passou por mudanças na distribuição da carga horária, e a presença e a profundidade dos conteúdos podem variar conforme a série, a matriz curricular e o itinerário formativo.

Uma análise publicada pelo Jornal da USP em fevereiro de 2026 apontou que o currículo paulista reduziu a carga horária de disciplinas tradicionais, incluindo Física e Química, enquanto ampliou conteúdos de caráter instrumental. O debate também chegou à Assembleia Legislativa de São Paulo, onde professores e estudantes apresentaram críticas à distribuição das aulas e à redução do espaço de componentes curriculares.

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A preocupação é que uma formação científica consistente não seja substituída por conteúdos excessivamente genéricos ou atividades que não aprofundem os conhecimentos necessários para o ensino superior.

Química, Biologia e Física não são apenas disciplinas cobradas em vestibulares. Elas ajudam a compreender o funcionamento do corpo humano, as mudanças climáticas, a tecnologia, os medicamentos e os fenômenos presentes no cotidiano.

Quando os estudantes sentem que não estão recebendo uma base sólida nessas áreas, surge uma pergunta legítima: estarão tendo as mesmas condições de preparação que alunos de escolas com maior carga horária de formação acadêmica?

Plataformas digitais: ferramentas de apoio ou protagonistas da educação?

Durante a gestão do governador Tarcísio de Freitas, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo ampliou a utilização de plataformas digitais, como TarefaSP, Redação Paulista, Matific e outras ferramentas acessadas pelo ambiente Sala do Futuro.

O governo defende que os recursos tecnológicos complementam as aulas, apoiam o trabalho docente e contribuem para melhorar o desempenho dos estudantes. Em março de 2026, a Secretaria informou que os alunos da rede estadual haviam realizado mais de 2,5 bilhões de atividades nas plataformas ao longo de 2025.

Mas a quantidade de atividades realizadas não responde, sozinha, a uma questão fundamental: quanto os estudantes efetivamente aprenderam?

Em artigo científico publicado na revista Educação e Pesquisa, pesquisadores discutem a plataformização e o controle pedagógico na rede estadual paulista, levantando questões relacionadas à autonomia dos professores e ao uso dessas ferramentas no processo de ensino.

Leia o estudo: Plataformização e controle pedagógico: disputas em torno da autonomia docente na rede estadual paulista⁠.

O problema não está necessariamente na existência da tecnologia. Recursos digitais podem ampliar o acesso a materiais, oferecer exercícios e ajudar na revisão de conteúdos. A preocupação aparece quando as plataformas passam a ocupar um espaço que deveria ser preenchido também por explicações, debates, atividades práticas e acompanhamento individualizado.

Estudantes relatam que as atividades digitais podem ter peso nas notas e se tornar uma obrigação cotidiana. No entanto, é necessário distinguir as regras específicas de cada ferramenta: nem todas possuem a mesma finalidade, e os critérios de avaliação dependem das orientações da Secretaria e da organização adotada pela escola.

Se a prioridade se torna concluir tarefas e acumular registros, sem que haja compreensão do conteúdo, o processo educacional corre o risco de privilegiar indicadores de participação em vez da aprendizagem.

E os professores, como ficam?

A transformação digital também altera o trabalho dos profissionais da educação.

Desde 2025, os registros de aulas, avaliações, frequência e notas da rede estadual passaram a ser realizados pelo sistema Sala do Futuro — Professor, conforme as orientações oficiais da Secretaria da Educação.

Além de preparar e ministrar aulas, os docentes precisam lidar com registros digitais, avaliações, acompanhamento de atividades e diferentes ferramentas utilizadas no cotidiano escolar.

A digitalização pode facilitar procedimentos administrativos, mas também levanta discussões sobre o tempo dedicado às tarefas burocráticas, as condições de trabalho e a autonomia dos professores para organizar o ensino de acordo com as necessidades de cada turma.

O desafio é garantir que a tecnologia sirva ao trabalho pedagógico, e não que o trabalho pedagógico seja organizado exclusivamente em função das exigências das plataformas.

A responsabilidade do governo estadual

As mudanças na rede estadual de ensino são conduzidas pela Secretaria da Educação, durante a gestão de Tarcísio de Freitas, iniciada em 2023. Portanto, é legítimo cobrar do governo explicações sobre as escolhas curriculares, a implementação das plataformas e os resultados concretos dessas políticas.

Isso não significa ignorar os indicadores educacionais divulgados pela própria Secretaria, nem afirmar que todos os estudantes aprendem menos ou que todas as escolas enfrentam os mesmos problemas. Significa reconhecer que resultados gerais precisam ser analisados junto à experiência cotidiana de quem está dentro das salas de aula.

Se o governo afirma que as plataformas melhoram o desempenho, é necessário que a sociedade também possa discutir como esse desempenho é medido, quais conhecimentos estão sendo desenvolvidos e se os alunos estão preparados para o Enem, os vestibulares e o mercado de trabalho.

Uma política educacional não deve ser avaliada apenas pelo número de acessos, tarefas realizadas ou ferramentas disponibilizadas. O resultado mais importante precisa ser a aprendizagem dos estudantes.

Seu filho, seu neto, seu sobrinho estudam em escola pública?

A educação pública não é uma questão distante das famílias. Ela influencia as oportunidades dos jovens, o acesso ao ensino superior e as possibilidades de construir um futuro com mais autonomia.

Por isso, pais, mães, avós, tios e responsáveis precisam acompanhar o que acontece nas escolas, conversar com os estudantes, ouvir os professores e buscar informações sobre as mudanças na educação estadual.

Se um aluno passa horas na escola, mas sente que não está aprendendo o suficiente, essa experiência merece ser ouvida e investigada. Se professores apontam dificuldades para ensinar, suas condições de trabalho também precisam entrar no debate.

Não basta manter o estudante dentro da escola. É preciso garantir que ele aprenda.

A educação pública precisa oferecer formação sólida, professores valorizados, acesso ao conhecimento científico e condições para que todos os jovens tenham oportunidades reais de continuar estudando.

O debate não deve ser reduzido a uma disputa política. O que está em jogo é o futuro de milhões de estudantes e o direito de receber uma educação de qualidade.

A pergunta que fica para as famílias e para o governo estadual é: estamos avaliando a educação pelo que os alunos realmente aprendem ou apenas pelo que conseguem concluir nas plataformas digitais?

FONTE/CRÉDITOS: IP