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Viver por muitos anos já foi, durante séculos, uma raridade quase lendária. Era algo associado àquela avó centenária que conhecia os segredos da cura no cheiro do mato, ou a personagens de romances que partiam serenamente, citando grandes filósofos. Hoje, porém, a longevidade deixou de ser exceção e passou a fazer parte das estatísticas.
A medicina avançou, os antibióticos tornaram-se presença constante, e passamos a vigiar o colesterol como se fosse um velho conhecido problemático. Assim, a expectativa de vida aumentou, e com ela surgiu a ideia, quase ingênua, de que viver muito significaria viver bem. Mas como bem destacou Mário Donato D’Angelo, 'viver muito não é a mesma coisa que viver bem'.
A verdade é que a longevidade chegou antes de um manual de instruções. Achávamos que envelhecer seria como chegar a um mirante e simplesmente contemplar a vida com serenidade. Mas a velhice, assim como a infância, exige cuidados diários e também um pouco de poesia.
O corpo começa a mostrar sinais da passagem do tempo: articulações que rangem, reflexos mais lentos, músculos que perdem força. Porém, não é apenas o corpo que envelhece — o mundo ao redor também pode se tornar distante.
Amigos partem, os filhos seguem seus caminhos e, de repente, o que mais pesa não é a dor física, mas o silêncio.
E então, muitas vezes, chega a queda — tanto a física quanto a simbólica: a perda do entusiasmo, da autonomia e da autoconfiança.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, um terço dos idosos sofre ao menos uma queda por ano, podendo iniciar um ciclo difícil de fraturas, cirurgias e perda de independência. Mas, como lembra Mário Donato D’Angelo, isso não é um alerta sombrio, e sim um 'chamado amoroso à reinvenção'.
O envelhecimento pode ser um recomeço. Preparar-se para ele é como cuidar de um jardim: requer paciência, atenção e escolhas conscientes. É preciso cultivar força, não para carregar peso, mas para abraçar sem medo; elasticidade, não só física, mas mental; e, acima de tudo, gentileza consigo mesmo.
Aceitar a velhice não significa resignar-se. Há envelhecimentos que florescem porque foram nutridos com afeto, liberdade e humor. O bom humor, aliás, é talvez o músculo mais importante: rir de si mesmo é uma forma de suavizar o peso do tempo.
Existem idosos encantadores, que dançam na sala, saboreiam um vinho com moderação, ou se aventuram a aprender novas tecnologias — errando, mas rindo dos erros. Quando bem-vivida, a longevidade é como uma tarde longa e luminosa, em que o tempo parece se estender entre lembranças e afetos.
A velhice não precisa ser sinônimo de decadência, mas sim de plenitude. Envelhecer bem é uma construção diária, feita de passos firmes e gestos suaves, de cuidado com o corpo e ternura com a memória. O segredo não está apenas em viver muito, mas em transformar a vida longa em uma arte, equilibrando tempo e desejo.
E que, ao final, possamos dizer com alegria: 'Foi bom ter vivido tanto. Mas foi melhor ainda ter vivido bem.' — inspirado em Mário Donato D’Angelo.
Escrito por:
Dr. Douglas Alberto Ferraz de Campos Filho.
É médico pneumologista, especialista em terapia intensiva e clinico geral
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