Ao longo da história da humanidade, o ser humano sempre buscou compreender o mundo à sua volta. O homem primitivo, diante de fenômenos naturais como o nascer e o pôr do sol, a escuridão da noite, os trovões, os relâmpagos, os vulcões e as tempestades, não possuía ferramentas cognitivas ou científicas para compreendê-los. Confuso com a consciência da vida, o medo da morte e atormentado pelo desejo de sobreviver, sua mente divagava em busca de explicações.
Assim, surgiram as crenças no sobrenatural como forma de dar sentido ao desconhecido.
Não é por acaso que, em muitas culturas e religiões, o sol, a vida, a fartura e a alegria foram associados a deuses benevolentes, enquanto a noite, a morte, a solidão e o sofrimento foram ligados a demônios e forças malignas. Essas crenças ofereciam conforto emocional diante de um mundo incompreensível e, muitas vezes, hostil.
Contudo, foi o cérebro humano — órgão fundamental para a sobrevivência — que permitiu, com sua evolução e complexidade, o surgimento da ciência. O avanço do conhecimento possibilitou ao ser humano entender melhor os fenômenos naturais, desenvolver tecnologias e construir a civilização científica em que vivemos hoje.
è O Retrocesso do Século XXI
É, portanto, com perplexidade que observamos, em pleno século XXI, uma tendência crescente de afastamento do conhecimento científico. Em vez disso, vê-se uma aceitação preocupante de pseudociências, terapias sem base experimental, misticismo e novos dogmas que se afastam do rigor da investigação racional.
Esse fenômeno não é inédito. Um exemplo histórico marcante é o de Santo Agostinho, importante teólogo e filósofo cristão. Embora tenha tido uma juventude intelectualmente ativa, Agostinho afastou-se da lógica e do pensamento racional. Em uma de suas reflexões, declarou:
"Existe uma forma de tentação carregada de perigo: é a doença da curiosidade. Ela nos guia a tentar desvendar os segredos da natureza, segredos que escapam à nossa compreensão, que nada nos acrescentam e que os homens não devem saber."
A morte de Santo Agostinho, em 430 d.C., é frequentemente considerada o marco inicial da Idade das Trevas na Europa — um período de estagnação intelectual e domínio do obscurantismo religioso.
è O Perigo da Rejeição ao Conhecimento
Hoje, vemos o ressurgimento de doutrinas vagas, baseadas em anedotas e sem comprovação experimental. Essa tendência revela um descuido intelectual e um desvio de energia que poderia ser mais produtivamente empregado na busca por soluções reais para os desafios da humanidade.
Um olhar atento à obra "A Descendência do Homem", de Charles Darwin, nos relembra da importância do conhecimento para o progresso. Darwin afirma que o homem pode se orgulhar de ter alcançado o topo da escala orgânica, não por ter sido criado assim, mas por ter evoluído. Tal conquista nos inspira a continuar avançando, pois, mesmo com todas as suas capacidades, o ser humano ainda carrega em seu corpo as marcas de sua origem primitiva.
è Fé e Ciência: Fronteiras Necessárias
A aceitação inquestionável de doutrinas místicas e seres sobrenaturais, bem como a crença literal na criação da natureza por deuses, ignora as evidências de nossa profunda conexão bioquímica, fisiológica e genética com os demais seres vivos. A ciência não nega a fé — mas o progresso exige que a fé não substitua o conhecimento.
O simples ato de crer, embora possa confortar em momentos difíceis, não deve substituir o pensamento crítico e a busca pela verdade. A ciência se constrói por meio da dúvida, da experimentação e do questionamento. É isso que permite o avanço do saber humano.
Doutrinas místicas, por outro lado, costumam apresentar-se como verdades absolutas, imunes à contestação e à razão. Isso as torna incompatíveis com o espírito científico, que está sempre disposto a revisar suas ideias diante de novas evidências.
è Conhecimento: Nosso Destino
Em seu livro "Os Dragões do Éden", o cientista Carl Sagan — astrônomo e biólogo da Universidade Cornell — defende que o futuro da humanidade depende da integração harmoniosa entre razão e criatividade. Segundo ele, o cérebro humano foi o instrumento que a natureza nos concedeu para garantir nossa sobrevivência. E é por meio dele que construiremos um futuro melhor.
A ciência, palavra de origem latina que significa conhecimento, é a base de nossa civilização. É ela que nos permite entender o mundo, melhorar a qualidade de vida e enfrentar os desafios globais.
Apenas por meio do conhecimento — livre, racional e questionador — poderemos garantir não só a continuidade da vida humana, mas também o progresso da civilização rumo a um destino mais justo, mais esclarecido e mais sustentável.
Tenha um bom dia.
Dr. Douglas Alberto Ferraz de Campos Filho.
É médico.
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